Quando a Velhice Chega a Nós II
Não era uma noite gélida, mas a lareira seguia acesa. Estava a pensar qual seria minha próxima história, precisava começar a escrever ou a editora me cobraria. Não sei se pelo frio ou pelo excesso de esforço mental, mas não consegui dar continuidade a minha novela anterior.
Foi quando a vi, linda e elegante como sempre esteve, descia as escadas sorrindo. Sorveu seu vinho, e se aproximou beijando minha testa.
- Como está indo? - tocou meu ombro.
- Não escrevi uma única página - suspirei sorrindo tristemente, tentando não perder as esperanças.
Ela acariciou minhas costas em um gesto de reconforto ao meu fracasso. Faltava menos de duas semanas para a entrega do enredo, estava bravo e decepcionado comigo mesmo.
- Uma música para inspirar, meu bem? - perguntou docemente, se sentando próxima a vitrola.
- Como não se inspirar em sua bela voz?
Sorriu deixando a taça de lado. Já sabia qual disco ela pegaria. Era nossa música, amávamos passar o tempo dançando tal canção.
Nunca ouvi um cantar mais belo que o de minha amada.
Conforme ouvia sua voz, ia escrevendo, não pensava, apenas escrevia. Tentava capturar a essência de sua canção, seus gestos performáticos, sua respiração... Tudo nela me encantava, me hipnotizava e me deixava mais leve. Me sentia amado, me sentia como se cada momento com ela fosse o mais especial do mundo.
Ela, notando que estava me emocionando, levantou-se da poltrona, nunca parando de cantar, sorriu estendendo sua mão para que eu a pegasse. A singela lágrima descia enquanto sorria para ela.
- Eu te amo - disse eu com melancolia.
Ela sorriu e se abaixou para beijar minha testa. Fechei os olhos para apreciar o toque que não veio.
- Ah, como eu queria que estivesse viva a minha doce Margarida - lamentei.
Sentado frente a escrivaninha, pensando sentir seu afago em minhas costas, adormeci para encontrar meu belo rouxinol outra vez.
- 🕯
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