Garoa

 Não consigo chorar. Tento mas não consigo. Não sei se pela indiferença que tenho de mim ou, por não querer ser vitimista. Mas não consigo chorar. Também não consigo conversar com ninguém sobre isso. Por mais que eu queira gritar e implorar por uma certa atenção, não acho que sou o tipo de pessoa digna de tal consentimento. 

 Quero chorar, quero soluçar, quero que me peguem no colo como uma criança a ser ninada. Quero que diga que está tudo bem, mesmo que seja mentira. Quero que minta pra mim enquanto canta uma canção que nunca ouvi antes, mas que traz nostalgia e me acalenta como uma brasa fina na superfície do meu peito.

 Estou me sentindo como uma garoa contínua. As pessoas não se importam tanto, a final, é só uma garoa. Mas a garoa não passa, deixa o céu nublado e escuro, molha todas as pessoas que se aventuram por muito tempo na rua sem um teto e, quando percebem, chegam em casa com frio e molhadas da cabeça aos pés. Percebem que tudo o que querem a partir daí é se livrar do molhado, do frio, e da garoa.


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