Postagens

Inferno

  Nós éramos tão novos quando fizemos todas aquelas juras de amor. Éramos apenas duas faíscas soltas no mundo, brincando e se arriscando a beira d'água. Corríamos felizes por sermos livres, não sabíamos o que a tal liberdade poderia causar. A faísca, um dia, se tornou uma brasa. Uma brasa que estava longe de ser branda, uma brasa que queimava as cortinas da casa, que incinerava tapetes, que transformava as madeiras da cama em cinzas. Era essa a liberdade da brasa, queimar tudo o quanto podia tocar. "Me deixarias queimando só?" foi o que ouvi antes de sorrir e segurar sua mão. A brasa se transformava em uma chama intensa, a casa já pegava fogo, não existia mais teto e as paredes se extinguiam rapidamente. "Morrerias de amor?" foi a resposta. E assistindo o inferno que criaram, pularam. O rio ainda estava lá, sendo a única coisa que restava daquele mundo em chamas. De mãos dadas, nos olhamos, sorrimos, e inflamamos. Ardendo em um amor perigoso, presos a uma morte ...

Amor no Fim do Túnel

Assim como as flores crescem Quebrando a terra com suas raízes Meu amor floresce Mesmo em momentos infelizes Mas não se apavore, meu amor Estarei lá para dar-te boas-vindas Não tenha temor É apenas o pós vida E assim que adentro os portões A cortejo com adoração Não penso em divagações Dou-te, ainda pulsando, meu coração -  🕯

Srª. P. Sono

  É quando fecho os olhos que a vejo. E eu sem nem saber sua aparência, a enxergo. A figura sombria, torta e borrada, pende a cabeça para o lado e então ergue a mão. Seus dedos finos, gélidos, arrepiam com suas unhas sujas e quebradiças arranhando aquela área repetidas vezes. Olhos turvos e olheiras maiores que as do dia anterior encaram de volta. Os dentes amarelados dão nojo e ânsia aos meus olhos mas, não consigo deixar de encara-la de volta. Não quero sua presença, apenas sinto que já a vi antes. Sei que não. Eu sei disso. Sua presença tão pouco me acalma. Muito pelo contrário, tenho a sensação que não sou capaz de mexer um musculo sequer. Não sinto meus braços ou pernas, o peito sobre e desce em frenesi, a sensação de sua comprida mão em minha cabeça e seu corpo descomunal sob o meu enfraquecem minha alma. Com o rosto em pranto, para não cometer o erro de gritar, mordo o lábio. Gosto de ferrugem preenche a boca. Mente em tormento é como me encontro. Mas assim como veio, ela va...

Garoa

  Não consigo chorar. Tento mas não consigo. Não sei se pela indiferença que tenho de mim ou, por não querer ser vitimista. Mas não consigo chorar. Também não consigo conversar com ninguém sobre isso. Por mais que eu queira gritar e implorar por uma certa atenção, não acho que sou o tipo de pessoa digna de tal consentimento.   Quero chorar, quero soluçar, quero que me peguem no colo como uma criança a ser ninada. Quero que diga que está tudo bem, mesmo que seja mentira. Quero que minta pra mim enquanto canta uma canção que nunca ouvi antes, mas que traz nostalgia e me acalenta como uma brasa fina na superfície do meu peito.  Estou me sentindo como uma garoa contínua. As pessoas não se importam tanto, a final, é só uma garoa. Mas a garoa não passa, deixa o céu nublado e escuro, molha todas as pessoas que se aventuram por muito tempo na rua sem um teto e, quando percebem, chegam em casa com frio e molhadas da cabeça aos pés. Percebem que tudo o que querem a partir daí ...

Quando a Velhice Chega a Nós II

Não era uma noite gélida, mas a lareira seguia acesa. Estava a pensar qual seria minha próxima história, precisava começar a escrever ou a editora me cobraria. Não sei se pelo frio ou pelo excesso de esforço mental, mas não consegui dar continuidade a minha novela anterior.  Foi quando a vi, linda e elegante como sempre esteve, descia as escadas sorrindo. Sorveu seu vinho, e se aproximou beijando minha testa. - Como está indo? - tocou meu ombro. - Não escrevi uma única página - suspirei sorrindo tristemente, tentando não perder as esperanças.  Ela acariciou minhas costas em um gesto de  reconforto ao meu fracasso. Faltava menos de duas semanas para a entrega do enredo, estava bravo e decepcionado comigo mesmo. - Uma música para inspirar, meu bem? - perguntou docemente, se sentando próxima a vitrola. - Como não se inspirar em sua bela voz?  Sorriu deixando a taça de lado. Já sabia qual disco ela pegaria. Era nossa música, amávamos passar o tempo dançando tal canção. ...